Cabelo livre de ditaduras

Minhas escolhas me definem. Não posso usá-las como parâmetro universal.

Erika Souza

Em 2015 publiquei uma foto minha no instagram com a seguinte legenda:

Nasci de forma equivocada. As pessoas que me pariram eram equivocados e por isso sempre fui assim. Nossa tão branquinha né? Mas esse cabelo deve da um trabalho… Na minha cabeça de criança equivocada todos tinham o direito de intervir no meu cabelo, afinal algo que tirava o sossego das pessoas devia ser contido. Mesmo que minha felicidade não fosse levada em conta. Corta, prende, alisa! Faz alguma coisa, quem mandou não nascer com cabelo bom? Fui educada que as pessoas que nascem com cabelo bom, não podem ser desrespeitadas por nós e nossos equívocos capilares, por isso até intervenção química para mudar a forma do meu cabelo fiz, como muitas outras mulheres fizeram e fazem. Libertar sua verdade e gritar ao mundo: “meu cabelo é afro!” Requer muita coragem e determinação. Você não vai mais alisar? A raiz tá triste! Conheço um produto excelente pra conter esse volume. Essas frases são torturas contínuas que todos que passam pela transição capilar tem que escutar. A escolha de renunciar a química e amar seu cabelo como você é, passa por um processo de muita dor. Respeite minhas escolhas. Respeite o direito de todo mundo ser quem é. Deixe meu fuah em paz.

Foi uma resposta, desabafo, às pessoas que questionam ou sugerem que eu mude a maneira como eu uso meu cabelo.

Em 2012 resolvi assumir de vez meu cabelo natural, erradicando toda química invasiva, seja alisante ou tintura. Também me desfiz da chapinha, que durante a transição capilar era minha companheira fiel.

Meu cabelo é crespo. Mostra minha ancestralidade sem nenhuma vergonha.

passar-chapinhaQuando eu era criança não existia tantos produtos e tratamentos para cabelos crespos. E o rótulo racista que se dava era: Cabelo ruim. Na minha adolescência veio o advento das “escovas progressivas” que prometiam 100% dos fios lisos. Era a terra prometida! Enfim, nós de cabelos não lisos, poderíamos andar livremente pelas ruas sem ser alvo de olhares de reprovação. Buscando essa tal liberdade, assim eu fiz: Alisei meu cabelo com um tratamento chamado: escova marroquina. Acredito eu, que provavelmente as mulheres marroquinas devem ter o cabelo bem liso.

O trabalho para manter aqueles fios 100% lisos… vocês não têm ideia. Sofria horrores. Fora o processo de aplicação, tinha que salvar o cabelo da água por uns dias e do xampu por outros. E mais: no primeiro dia até a forma de dormir era guiada pelo santo tratamento alisante.

Com minha emancipação como pessoa fui entendendo, descobrindo que eu não precisava passar por aquilo. Mas será que meu cabelo um dia voltaria a ser o que era? Muita luta, muita perseverança e anos depois tenho meu cabelo natural de volta.

É muito mais comum, hoje em dia, ver as meninas cultivando os cachos, e também são aceitos mais facilmente pela sociedade em geral.

Estudo de caso

Participei de um evento ano passado, onde meu penteado da ocasião precisava fazer uma escova. Tudo bem, afinal sou profissional bastante para saber que aquele coque sem a escova iria ficar deselegante com a roupa e com a proposta. Fazia tudo parte do personagem que eu vivia naquela noite. Quando terminou, que desmanchei o coque escutei a seguinte frase: Nossa! Seu cabelo tá escovado? Que horror!!! Nunca mais faça isso. Eu tava tão cansada que dei minha cara de “quem se importa com a sua opinião” como resposta.

Conclusão

Nasci crespa. Alisei. Voltei a ser crespa natural. Pronto, foram minhas escolhas!

Se eu quiser alisar de novo eu posso e faço. Assim como se eu quiser passar a máquina no dois, é um direito que me assiste. Pintar de roxo ou loiro são escolhas que posso acordar com elas amanhã e se tiver grana pra fazer a intervenção faço e acabou.

O cabelo é meu e no dia que eu quiser escovar, passar chapinha eu passo. Eu não saí da ditadura da chapinha, onde nenhum fio podia está fora do lugar para entrar na ditadura dos cachos.

Não é porque eu fui oprimida que hoje vou oprimir. O interessante é que todas as pessoas usem seus cabelos da forma que lhes forem mais agradável. Para mim a forma mais confortável hoje é assim bem bagunçado. Mas essa é a minha escolha.

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